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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Opinião dada ao Jornal O Nacional de Passo Fundo em 24/02/2010

>
> Por exemplo, uma escola usa a regra básica do twitter, o limite de 140
> caracteres por mensagem, para que alunos desenvolvam narrativa e
> concisão em minicontos.
> (http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20101018/not_imp626165,0.php)
> A partir desse exemplo, gostaria de conversar com o senhor. Tentei
> ligar, mas o celular estava desligado.
>

Meu celular anda com vontade própria viu... rsrsrsr mas vamos lá...

> Então, gostaria que o professor avaliasse o uso de recursos
> tecnológico na educação, tanto em escolas quanto em instituições de
> nível superior.

Bueno, veja que estas questões envolvem uma boa dose de subjetividade,
uma vez que não existe um padrão, e uma pitada de sensibilidade e
atenção para avaliar a forma como as instituições de ensino, ainda
baseadas em uma lógica de distribuição de informações e de comunicação
unidirecional (professor fala e aluno escuta), utilizam (ou não) os
recursos tecnológicos.

Antes porém, é preciso que se reconheça que o que está em jogo é muito
mais do que utilizar as tecnologias, o que demanda a presença delas no
ambiente escolar, mas a sua apropriação social, que tem a ver com a
concepção de educação e com o reconhecimento do potencial destas
tecnologias. O meu entendimento de apropriação social está no outro
extremo da relação educacional baseada na linearidade, na transmissão e
na inflexibilidade do currículo, características que em um curto espaço
de tempo levarão à derrocada das instituições de ensino no formato que
conhecemos. Apropriação social tem a ver com uma utilização
contextualizada, inusitada e criativa das tecnologias como base para
processos de comunicação.

Trocando em miúdos, temos um descompasso entre Escola (seja ela de nível
fundamental, médio ou superior) e potencial das tecnologias como as
redes sociais por exemplo. Este descompasso reside no fato de que são
poucas as escolas que, a exemplo do Colégio Hugo Sarmento, lançam mão
das tecnologias que fazem parte do cotidiano dos alunos para dar mais
cor e movimento ao processo de aprendizagem.

> O que pode ser feito, como o exemplo do twitter?

Retomando o que comentei acima, a questão está muito mais ligada à
concepção de educação do que à tecnologia em sim. Esta afirmação
baseia-se no fato de que o processo de aprendizagem está baseado
fundamentalmente em processos interativos e comunicacionais, neste
sentido, qualquer recurso que tenha por base o estabelecimento de trocas
de informações ou de comunicação pode ser utilizado para fins
educacionais (lembremos que estou me referindo à Educação com E
maiúsculo, na concepção mais pura e complexa possível, antagônica a
processos de transmissão de informações)...

Assim, o twitter, e qualquer outra mídia social, possui um potencial
enorme e diretamente proporcional à criatividade de professores e
alunos. Tal conjugação (competência didática do professor e técnica do
aluno) pode gerar desde uma fonte interessante de informações, uma vez
que eu posso seguir, por exemplo, @MarceloTas para ter acesso às últimas
reflexões ácidas e geralmente contundentes do jornalista, ou ainda o
@MiniComBrasil para ficar informado acerca do andamento do projeto
Brasil Conectado, até uma forma poderosa de divulgação de informações de
sua escola, de manifestação e articulação social em torno de alguma
situação, ou de criação de redes de colaboração, de comunidades de
aprendizagem onde as pessoas se aglutinam em torno de um determinado
tema ou interesse. 

> Como explorar a tecnologia a favor dos alunos? 

É claro que esta resposta não é tão simples, nem tão linear, mas penso
que seja fundamental observar a dinâmica de utilização destas
tecnologias pelos alunos for do ambiente escolar, invariavelmente mais
criativa e contextualizada às suas próprias demandas. Ainda, é
importante que os professores modulem sua energia não para dominar a
tecnologia, mas compreender a sua dinâmica e para isto, ninguém melhor
do que os próprios alunos para ajuda-los.

De qualquer forma, me parece que valorizar a diversidade, e criar
espaços e formas de autoria com apoio das tecnologias seja uma das
formas de resgatarmos as características emancipatórias da educação.

> Quais são as vantagens dessa aliança?

Eu diria que as vantagens são as mesmas que obteríamos sem tecnologia.
Ou seja, o processo educativo não é vertical, mas reticular; não é
rígido, mas flexível, não é monocromático, mas colorido. Não é
monológico, mas dialógico; não é informacional, mas comunicacional. E
isto pode ser obtido sem tecnologia. O grande lance do entrelaçamento da
tecnologia em processos educativos reticulares, coloridos, dialógicos e
comunicacionais é o potencial multimídia das tecnologias que
possibilitam o acesso à informação e a publicação do conhecimento gerado
em diferentes formatos e, principalmente, a sua capacidade de conectar
pessoas com diferentes habilidades, conhecimentos e competências,
contexto extremamente poderoso para a aprendizagem.

> Quais podem ser as desvantagens?

Me parece que uma vez não se considerando a competência técnica e a
dinâmica de utilização das tecnologias por parte dos alunos, e
desconhecendo a lógica que está por detrás das tecnologias
contemporâneas como o Twitter, o Facebook, os Wikis, os blogs, dentre
outras, corre-se o risco da banalização da tecnologia, do aprofundamento
do desinteresse dos alunos e o que é mais grave, da consolidação de um
modelo de educação que não tem mais espaço, embora ainda sejamos
teimosos em reproduzi-lo, na sociedade contemporânea.

> A educação trabalhada no método tradicional de ensino (quadro negro,
> giz, tema de casa no caderno, decoração de datas e nomes)  tem
> futuro?

As características que elencaste não fazem parte do que eu, e outras
pessoas, chamariam de educação. De forma simplista, no máximo poderíamos
denominar de ensino. É preciso que se reconheça, também de forma geral,
que educação pressupõe também aprendizagem. Não preciso mais decorar
datas e nomes, pois estas informações, e muito mai, está disponível a
qualquer momento e em qualquer lugar. A educação da cibercultura é
aquela que valoriza e se preocupa mais em aprimorar no aluno habilidades
para localizar, selecionar, contextualizar e refletir conjuntamente
acerca de determinado assunto.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Opinião dada ao Jornal O Nacional de Passo Fundo em 03/02/2010

> Boa tarde, professor. Conforme conversamos pelo telefone, envio as
> perguntas referentes as manifestações populares no Egito e o papel da
> internet.
>
> - Ao mesmo tempo que as informações divulgadas na internet tem um
> prazo de validade, a repercussão do que cai na rede é imensurável.
> Como o senhor avalia isso?

Sem dúvida, os desdobramentos do alcance e da repercussão de notícias na
internet é fenomenal e imprevisível. Tal comportamento se dá em função
da estrutura da internet que dificulta, pra não dizer inviabiliza, o
controle do acesso. Embora tenhamos alguns exemplos de controle em
alguns países como na Coréia do Norte, Cuba e, mais recentemente, o
Egito, coibir o acesso à rede é complicado uma vez que a sua dinâmica
abre possibilidades de burlar todo e qualquer controle.

Esta fluidez e alcance de informação, caraterística da Internet, a meu
ver, tem assumido um papel determinante no processo de democratização da
informação, de exposição de situações de violência, de revindicação de
direitos, de exposição de problemas, sejam eles pessoais ou sociais, e
isto é extremamente positivo.


>
> - Pode surgir algo mais veloz e democrático do que a internet?

Veja que podemos classificar as tecnologias a partir de duas
perspectivas, da evolução e da revolução. De forma superficial, o
processo de evolução diz respeito a tecnologias que evoluíram a partir
de outras, entretanto, as tecnologias revolucionárias são as que
transformaram radicalmente e para sempre a dinâmica da sociedade, como é
o caso da Internet. Pois bem, me parece que dentre as tecnologias que
tem por objetivo disseminar informações e suportar a comunicação, a
Internet representa uma evolução, não pelo seu potencial de
disponibilizar informações, muito maior do que qualquer outra mídia, mas
exatamente pelo seu alcance e, principalmente, por ela se consolidar
como um espaço de comunicação multdirecional e absolutamente livre.

Para onde vamos? Pergunta difícil, mas me parece que vamos demorar para
presenciar outra tecnologia tão revolucionária quanto à internet.
Entretanto, sem dúvida temos muito a avançar na disponibilização de
acesso e na melhoria do serviço de conexão que dispomos, estes tem sido
os próximos da Internet.
>
> - Como o senhor avalia o papel da internet na política e na própria
> história da humanidade?


Bem, os meios de comunicação (a internet TAMBÉM é isso) sempre tiveram
um papel fundamental nos rumos políticos da humanidade. Entretanto
todos, com exceção da Internet, tinham o filtro do jornalista, da
emissora de TV ou rádio, do jornal, etc. A grande diferença é que a
Internet possibilita que absolutamente qualquer pessoa possa servir de
emissor de informações, o que subverte a lógica da mídia de massa e
revoluciona os movimentos políticos no mundo. Não foi somente a campanha
do presidente dos EAU, Barak Obama que demonstrou isto, mas, mais
recentemente, a forma como os Egípcios utilizaram a internet para se
manifestar acerco do regime do ditador Hosni Mubarak.

>
> - Li um livro de Pierre Lévy – As tecnologias da Inteligência- O
> futuro do pensamento na era da informática que diz que a maneira como
> utilizamos o computador a internet, a informatica muda a forma de
> organizarmos/estruturamos as informações no nosso cérebro., o nosso
> pensamento. A questão da não linearidade, da memória, da rapidez... O
> senhor acredita que a internet está transformando a maneira de nos
> manifestarmos diante de situações na política, economia, vida
> social...
>

Veja que eu acredito que o ser humano sempre foi crítico, faz parte de
nossa constituição enquanto "seres humanos", sempre nos sensibilizamos
com situações, emitimos sempre que possível nossa opinião e nos
manifestamos quando achamos necessário e pertinente. Pois bem, o que
temos agora é um veículo de alcance global e interplanetário - uma vez q
a Nasa já possui conexão à internet com a lua, por exemplo - que é
aberto e liberto (de regras) de manifestação. Assim, sem dúvida a
internet está transformando nossa maneira de nos manifestarmos, não em
essência, mas em formato.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Opinião dada à revista Versa de Passo Fundo em 02/02/2011


> O assunto seria: "Olho no olho: a internet e as relações pessoais".
> Eu gostaria de ter a sua opinião como especialista no assunto, falando sobre as mudanças nas relações entre as pessoas com a presença - praticamente definitiva - da Internet do dia a dia das pessoas.
> Como foi a evolução e para que rumo estamos andando, principalmente no que diz respeito da convivência entre as pessoas?

Fabiana Rezende

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Bem Fabiana, gostaria de partir de dois princípios: 1º o ser humano é um ser social. 2º a internet veio pra aproximar e não afastar as pessoas.

Pois bem, existem estudos que provam que se comunicar é uma necessidade vital do ser humano e que quando as oportunidades de comunicação são de alguma forma prejudicadas, as pessoas adoecem mais facilmente. Alguns estudos comprovam que quando o indivíduo se aposenta, ou seja, rompe com laços comunicacionais com os quais se relaciona durante, pelo menos, dois turnos de seu dia, e ao mesmo tempo, seus familiares continuam suas atividades profissionais, as oportunidades de interação são muito fragilizados, processo que potencializa a ocorrência de doenças.
Em resumo, nos concretizamos enquanto seres humanos na interação com os outros, no diálogo e na interação.

Esta demanda humana, se cristaliza no número de usuários do Facebook, por exemplo, que em julho de 2010 atingiu a incrivel marca de 500 milhões de usuários. Para que compreendamos melhor, se o Facebook fosse um país, ficaria atrás da China e da Índia somente. Esta procura por espaços como este se dá pela necessidade (natural) das pessoas de se comunicarem. É claro que com um potencial de alcance infinitamente superior aos processos presenciais de interação que, sem dúvida são fundamentais e importantíssimos, mesmo que se dê sobre variáveis de tempo e espaço específicas. Ou seja, as interações presenciais demandam que eu e meu interlocutor estejamos no mesmo local e no mesmo momento para podermos interagir.

Claro que podemos adotar o discurso prematuro de que a presença física possibilita interações mais complexas, entretanto, se considerarmos que o contato físico que temos com nossos interlocutores, na esmagadora maioria das vezes se resuma a um aperto de mãos, (ao menos aqui pois na índia o contato físico é muito mais frequente e se consolida como parte da cultura do país), veremos que a presença física não é fundamental.

O que a Internet propicia é o contato entre pessoas que possuem interesses em comum e que, talvez não se encontrariam de outra forma. A tecnologia é coadjuvante no processo a medida em que ao conectar dois computadores, a rede está na verdade colocando lado a lado duas, ou muito mais, pessoas.