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quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Sendo professor na era da colaboração e da convergência II

Este texto teve sua origem em um post de 23 de setembro de 2011, a partir de reflexões conjuntas que realizamos na disciplina de Metodologia do Ensino Superior do Mestrado em Educação. Naquela oportunidade foram registros isolados de percepções acerca do que muda (ou do que não muda) na escola da sociedade em rede, das novas (e talvez não tão novas) demandas da prática docente, das competências e habilidades dos alunos e da sempre fundamental necessidade de construir espaços de aprendizagem que, definitivamente, não dependem de tecnologias, mas por elas pode ser complexificado, no sentido de enriquecido, potencializado, virtualizado.

A requisição dos colegas do NTE-Ijuí, de que fizesse um texto ilustrando minha fala do dia 18 de agosto de 2011, gotejando elementos a serem destacados em 10 de novembro de 2011, me impele a construir um texto definitivamente não-acadêmico, mas construído a partir de convicções nascidas da interação com outros professores, do convívio com alunos adolescentes, da observação da naturalidade com que as crianças interagem com a tecnologia e, sem dúvida das convicções que tenho acerca do potencial inclusivo e transformador da tecnologia.

No primeiro encontro com os professores de Ijuí e região, desenvolvi a ideia de que não existe lugar (específico) para a tecnologia na Escola, mas que ela representa uma oportunidade de desenvolvimento de atividades inter, multi e transdisciplinares, permeando os processos de aprendizagem, seja como espaço de socialização, de comunicação ou de construção conjunto do conhecimento. De lá pra cá, o grupo de professores experienciou um processo de formação e de reflexão acerca da informática educativa utilizando a internet como espaço de pertilha, de reflexão e de discussão. No encontro de 10 de novembro, realizaremos um diálogo franco sobre os desafios enfrentados, as conquistas realizadas e a postura assumida por cada um para dar conta deste momento formação.

Dentro deste contexto, seria incoerente de minha parte, fazer um texto fechado, rígido e que ficasse preso a um suporte, qualquer que seja, que não possibilitasse a fluidez, a discussão, a hipertextualidade própria da web e absolutamente poderosa para processos de aprendizagem. Assim, este é um híbrido de texto e post em blog (*), sem a pretensão de fechar questões ou dar respostas definitivas a quaisquer das questões levantadas a seguir, o que me liberta do formalismo acadêmico. Aí está a essência da web, não existe questão fechada. Toda e qualquer ideia é incompleta, uma vez que clama (e precisa) da colaboração das pessoas que aceitam o desafio de discutir.

As percepções e as ideias abaixo são percepções acerca de elementos que envolvem a "opção pelo digital" que abre a possibilidade de abertura de novas frentes de reflexão, de ampliação das ideias aqui registradas, de contraposição de argumentos, enfim, de dar vida, cor e movimento ao pensamento! Desta forma, opto por trabalhar pontos específicos como ponto de partida para discussão sem necessariamente estabelecer as relações entre eles, que certamente existem, mas que devem (ou não) ser feitas colaborativamente.


1. Optar pelo digital, pelo uso da tecnologia não significa negar os demais recursos tecnológicos. É importante considerar o quanto o conteúdo dá vazão à utilização da tecnologia, e mais importante, de que tecnologia. Não parece prudente que se opte por uma tecnologia, seja ela qual for, em detrimento das outras. Não existem tecnologias melhores e tecnologias piores, mas sim, tecnologias mais ou menso flexíveis. Portanto, é preciso reconhecer que em algumas situações (e não são poucas) a biblioteca, o quadro, o DVD (não falo de VHS para não descobrirem minha idade ;-) ), podem ser espaços e instrumentos de aprendizagem valiosos.

2. Importante considerar o conhecimento prévio do aluno. Sim, isto não é novidade e "aprendemos" isto na Universidade. Mas aqui me refiro ao conhecimento e às habilidades tecnológicas, ao que o aluno sabe fazer com a tecnologia, aos interesses dele. Alguns gostam de vídeo, outros de música, outros ainda de texto, seja como leitor ou, como é frequente, de autor de conteúdo em um destes formatos. Qual seria o desdobramento da desafio de que cada um seja autor e partuicipe do processo de aprendizagem a partir de suas habilidades e do que sabem fazer (e como sabem) com a tecnologia? é importante destacar que talvez nem todas os alunos possam ter material (analógico) de qualidade, mas estão em pé de igualdade quando se trata de material e espaços digitais de aprendizagem.

3. O potencial de socialização do conhecimento erado, ou das experiências realizadas traz responsabilidades para o aluno e para o professor. Para o aluno no ato de disponibilizar para o mundo algo que foi construído e que não fica mais restrito somente a ele e ao professor, no máximo à turma. Para o professor uma vez que deve dar resposta às demandas dos alunos e acompanhar os processos que estão sendo desenvolvidos.

4. O professor não precisa ser um profundo conhecedor da tecnologia, até pq isto demandaria um esforço sobre-humano, portanto sempre insuficiente, para acompanhar as novas tendências, os lançamentos, os sites do momento, etc. É preciso, de uma vez por todas assumir que somos professores e não técnicos em informática. Não estou aqui desqualificando aqueles que dominam as ferramentas digitais, mas valorizando aquilo que é fundamental no processo educativo, criar espaços desafiadores e propícios ao desenvolvimento de processos de aprendizagem a serem vividos pela turma, e para isto temos competência como professores.

5.O grande potencial da tecnologia é a possibilidade de envolver os alunos em um processo conjunto de construção. Baseado na participação e na valorização das diferenças, aquelas que tratei no ponto 2. Usar tecnologia de forma democratizante é envolver o aluno no ato de aprender, de ensinar, de conhecer. Existem uma infinidade de possibilidades de apropriação das tecnologias e me parece que o caminho mais complicado é querer, como professor, definir quais os recursos a serem utilizados uma vez que existe um sem número de possibilidades que não conhecemos e que são utilizadas pelos alunos no seu dia a dia. cada vez é menos importante o rótulo "educacional" em uma tecnologia. No ponto 1 destaquei a questão da flexibilidade da tecnologia (o que é diferente de neutralidade, mas este não é o momento de tratar disto) e o resgato aqui: Pq não deixar que nossos alunos proponham a utilização do que eles dominam e utilizam com naturalidade e entusiasmo no cotidiano de nossas turmas?

6. Esta infinidade de possibilidades tecnológicas acarreta, é claro, na ampliação significativa dos espaços em que as discussões da turma ocorrem, o que, fiquem tranquilas e tranquilos, impossibilita que o professor acompanhe todas as discussões, ou dê respostas à todas as demandas, pois não estamos mais em uma sala de aula, onde a sensação de controle, que na verdade nunca existiu, é presente. assim, é fundamental que se crie um movimento de corresponsabilização pelo aprendizado. Ou seja, não é só o professor que deve responder a um fórum, a comunidade criada no Facebook pode sim ser alimentada pelos alunos e a participação motivada por eles próprios. E essa demanda de corresponsabilização deve ficar claro entre os alunos.

7. Entretanto, a medida em que muitos dos pontos apresentados aqui suavizem a cobrança que nós próprios professores imputamos sobre nossa ação no mundo digital, é fundamental que se reconheça que existem também as consequências da horizontalização do processo de aprendizagem, seja no aumento das requisições dos alunos, na administração de conflitos no auxílio à valoração das informações, ao estabelecimento de conexões a nós especializados, etc, etc. Esta criação de novos espaços de interação que vão além da sala de aula (que geralmente estabelece um distanciamento transacional entre alunos e professores), pode, igualmente, resgatar a relação de proximidade entre os agentes educacionais. Ainda, a esta horizontalização do processo pode figurar como uma elemento motivacional para os alunos.

8. A auto exigência de controle que mencionei no item 6, nos impele como professores a ter tudo meticulosamente planejado, onde não existem imprevistos, ou se ocorrerem podem ser facilmente contornados.  Em se tratando de tecnologia isto não se consolida. Ou seja, uma aula preparada para utilizar a internet, não ocorrerá sem ela, e demandará um plano B. Computadores dependem (ainda e infelizmente) de eletrecidade. Sites ficam indisponíveis. O computador da escola é diferente do seu. E por aí vão as possibilidades de imprevisto. Assim, é fundamental que se esteja preparado.

9. Seja criativo... O que usar? pq Usar? Como usar?  No ponto 1 falamos da flexibilidade das tecnologias. Assim, fique tranquilo/a se optar pela biblioteca. Ainda, os motivos que nos levam a optar por um ou outro recurso continuam valendo para as tecnologias digitais. É claro que a abertura para que nossos alunos nos convençam que determinada tecnologia pode servir ao processo de aprendizagem deve ser respeitada e mantida.

10. Nem todos são Homo Zappiens! Existe um certo folclore de que todos os nossos alunos “nascem concetados” e tenho minhas dúvidas sobre até que ponto isto é uma verdade. É certo que eles possuem facilidade para aprender o manuseio, descobrir novos recursos e compreender sua dinâmica. Mas nem todos os alunos são assim. Convivem na mesma escola alunos que tem computadores conectados à internet em seus quartos e alunos que vão descobrir e conhecer a tecnologia somente dentro da Escola. Assim, cria-se o desafio de, por um lado motivar o que já conhecem sem excluir os outros e, por outro, criar possibilidade de acesso àqueles que não o tem.

11. É indiscutível o potencial ilustrativo das tecnologias. Não existe absolutamente nenhum assunto que trabalhamos em sela de aula que não podemos encontrar na web em um formato mais atraente, ou com mais detalhes do que o quadro nos permite trabalhar. Mas a aprendizagem não se dá somente na ilustração de conceitos, fenômenos e processos... Isto remete à um dos receios mais antigos na área de informática educativa: Será a tecnologia o fim dos professores? Se estamos falando de repassadores de informação, sim! 
  
12. Quanto maior o conhecimento e a motivação do professor, maiores as possibilidades. Anteriormente falei que o professor não precisa ser técnico, e acredito nisto... Mas é claro que quanto maior o conhecimento tecnológico (e conceitual) do professor, maiores as possibilidades de envolver os alunos e criar alternativas para o processo de aprendizagem. Mas se pensarmos bem, isto não é novo, quem não lembra de um professor que mesmo sem tecnologia motivava os alunos e criava uma situação de comprometimento da turma para com a sua disciplina? Vale o mesmo para a tecnologia, mas sem dúvida alguma, mais importante do que dominar é compreender sua dinâmica.

13.  Os espaços escolhidos são pontos de partida e não e chegada. A lógica hipertextual das mídias digitais impossibilitam o controle sobre os trajetos de aprendizagem. Portanto é importante que se reconheça que toda e qualquer tecnologia, ou site, ou opção técnica é ponto de partida. É bom que se lembre que em uma dinâmica digital, o professores ter uma certeza, uma esperança e várias possibilidades. Certeza do ponto de partida, esperança de chegar a determinado objetivo e várias possibilidades de alcançá-lo, construídas pelos próprios alunos.

14. O que está disponível não é pra todo mundo ler... ;-)  A infinidade de possibilidades abertas pelo mundo digital e a multiplicação da participação dos alunos inviabiliza o acompanhamento do professor e dos próprios alunos. Assim, é importante compreender que nem tudo vai ser visto ou discutido e é assim que deve ser. Se um único aluno se beneficiar da informação disponibilizada, já valeu a pena.

Bem pessoal, como todo o texto de post de blog, ele está em discussão e aberto para novas percepções, outros pontos de vista e ampliação. Bom trabalho!

(*) Este post está disponível no blog http://nossacibervida.blogspot.com
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